sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Psicografia extraída da Revista Espírita, edição outubro 1860

MARTE
Médium – Sra. Costel









Marte é um planeta inferior à Terra, da qual é grosseiro esboço; não é necessário habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos mais grosseiros demônios. Os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem, sem a nobreza da bondade.
Entregues às necessidades materiais, comem, bebem, batem-se, acasalam-se. Mas como Deus não abandona nenhuma de suas criaturas, no fundo das trevas de sua inteligência jaz latente o vago conhecimento de si mesmos, mais ou menos desenvolvido. Esse instinto é suficiente para torná-los superiores uns aos outros e preparar a eclosão para uma vida mais completa. A deles é curta como a dos insetos efêmeros. Os homens, que são apenas matéria, desaparecem após curta evolução. Deus tem horror ao mal e só o tolera como servindo de princípio ao bem. Ele abrevia o seu reino, sobre o qual triunfa a ressurreição.
Nesse planeta a terra é árida; pouca verdura; uma folhagem sombria, que a primavera não renova; um dia igual e cinzento. Apenas aparente, o Sol jamais prodigaliza suas festas; o tempo escoa monótono, sem as alternativas e as esperanças das novas estações; não é inverno, não é verão. Mais curto, o dia não é medido do mesmo modo; a noite reina mais longa. Sem indústria, sem invenções, os habitantes de Marte consomem a vida à procura de alimento. Suas grosseiras habitações, baixas como um casebre, são repugnantes pela incúria e pela desordem que nelas reinam. As mulheres se destacam sobre os homens; mais abandonadas, mais famélicas, não passam de suas fêmeas. Têm apenas o sentimento maternal; dão à luz com facilidade, sem nenhuma angústia; alimentam e guardam seus filhos a seu lado, até o completo desenvolvimento de suas forças, e os expulsam sem pesar e sem saudade.
Não são canibais; suas contínuas batalhas não têm outro objetivo que não seja a posse de um terreno mais ou menos abundante em caça. Caçam nas planícies intermináveis. Inquietos e instáveis como os seres desprovidos de inteligência, deslocam-se incessantemente. A igualdade da estação, a mesma em toda parte, comporta, em conseqüência, as mesmas necessidades e as mesmas ocupações; há pouca diferença entre os habitantes de um e de outro hemisfério.
Para eles a morte não representa nenhum pavor ou mistério; consideram-na apenas como a putrefação do corpo, que queimam imediatamente. Quando um desses homens vai morrer, logo é abandonado; então, só e deitado, pensa pela primeira vez; um vago instinto o assalta; como a andorinha advertida da próxima estação, sente que nem tudo está acabado, que vai recomeçar alguma coisa desconhecida. Não é bastante inteligente para supor, temer ou esperar, mas calcula, às pressas, suas vitórias e derrotas; pensa no número de caças que abateu e se regozija ou se aflige conforme os resultados obtidos. Sua mulher – só têm uma por vez, embora possam trocá-las sempre que lhes convêm – agachada à entrada, atira seixos no ar; quando formam um montículo, ela julga que chegou a hora e se aventura a olhar para o interior; se suas previsões se tiverem realizado, se o homem estiver morto, ela entra sem um grito, sem uma lágrima, despoja-o da pele de animais que
o envolve, vai friamente avisar seus vizinhos, que transportam o corpo e o incineram, tão logo esfria.
Os animais, que por toda parte sofrem os reflexos humanos, são mais selvagens, mais cruéis que em qualquer outro lugar. O cão e o lobo são uma só e mesma espécie, incessantemente em luta com o homem, que, contra eles, se entrega a combates encarniçados. Aliás, menos numerosos, menos variados que na Terra, os animais são a miniatura deles mesmos.
Os elementos têm a cólera cega do caos; o mar furioso separa os continentes sem navegação possível; o vento ruge e curva as árvores até o solo; as águas submergem as terras ingratas, que não fecunda; o terreno não oferece as mesmas condições geológicas da Terra; o fogo não o aquece; os vulcões são desconhecidos; as montanhas, pouco elevadas, não oferecem nenhuma beleza; fatigam o olhar e desencorajam a exploração; enfim, por toda parte, monotonia e violência; por toda parte a flor sem cor e sem perfume, por toda parte o homem sem previdência, matando para sobreviver.
Georges


Psicografia extraída da Revista Espírita, edição outubro de 1860

JÚPITER
Médium – Sra. Costel

Infinitamente maior que a Terra, o planeta Júpiter não apresenta o mesmo aspecto. É inundado por uma luz pura e brilhante, que ilumina sem ofuscar. As árvores, as flores, os insetos, os animais, dos quais os vossos são o ponto de partida, ali são maiores e aperfeiçoados; a Natureza é mais grandiosa e mais
variada; a temperatura é igual e deliciosa; a harmonia das esferas encanta os olhos e os ouvidos. A forma dos seres que o habitam é a mesma que a vossa, mas embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo purificada. Não somos submetidos às condições materiais de vossa natureza: não temos as necessidades, nem as doenças que lhes são conseqüência. Somos almas revestidas de um envoltório diáfano, que conserva os traços de nossas passadas migrações; aparecemos
aos amigos tal como nos conheceram, porém iluminados por uma luz divina, transfigurados por nossas impressões interiores, que são sempre elevadas.
Como a Terra, Júpiter é dividido num grande número de países de aspectos variados, mas não de clima. As diferenças de condições são determinadas apenas pela superioridade moral e de inteligência; não há senhores nem escravos; os mais elevados graus são marcados somente pelas comunicações mais diretas e mais freqüentes com os Espíritos puros e pelas mais importantes funções que nos são confiadas. Vossas habitações não vos podem dar nenhuma idéia das nossas, pois não temos as mesmas necessidades. Cultivamos as artes, chegadas a um grau de perfeição desconhecida entre vós. Gozamos de espetáculos sublimes; entre
eles, o que mais admiramos, à medida que melhor compreendemos, é o da inesgotável variedade das criações, variedades harmoniosas que têm o mesmo ponto de partida e se aperfeiçoam no mesmo sentido. Todos os sentimentos ternos e elevados da natureza humana, nós os encontramos engrandecidos e purificados, e o
desejo incessante que temos, de alcançar o plano dos Espíritos puros, não é um tormento, mas uma nobre ambição que nos impele ao aperfeiçoamento. Estudamos incessantemente, com amor, para nos elevarmos até eles, o que também fazem os seres inferiores para nos igualarem. Vossos pequenos ódios, vossos ciúmes
mesquinhos nos são desconhecidos; um laço de amor e de fraternidade nos une: os mais fortes ajudam os mais fracos. Em vosso mundo tendes necessidade da sombra do mal para sentir o bem, da noite para admirar a luz, da doença para apreciar a saúde.
Aqui, esses contrastes não são necessários; a eterna luz, a eterna bondade, a calma eterna da alma nos cumulam de uma eterna alegria. Eis o que o Espírito humano tem mais dificuldade para compreender: se foi engenhoso para pintar os tormentos do inferno, jamais pôde representar as alegrias do céu. E por quê?
Porque, sendo inferior, só tendo suportado sofrimentos e misérias, não foi capaz de entrever as claridades celestes; não vos pode falar senão do que conhece, como o viajante descreve os países que percorreu. Mas, à medida que se eleva e se depura, o horizonte se aclara e ele compreende o bem que está à sua frente, como
compreendeu o mal que ficou para trás.
Já outros Espíritos tentaram vos fazer compreender, tanto quanto o permite a vossa natureza, o estado dos mundos felizes, a fim de vos estimular a seguir o único caminho que a eles pode conduzir. Mas há entre vós os que estão de tal modo ligados à matéria, que ainda preferem as alegrias materiais da Terra às
alegrias puras, reservadas ao homem que sabe desligar-se delas. Que gozem, pois, enquanto estão aqui! Porque um triste revés os espera, talvez mesmo nesta vida. Os que escolhemos para nossos intérpretes são os primeiros a receber a luz. Infelizes, sobretudo, os que não aproveitam o favor que Deus lhes concede, porquanto sua justiça pesará sobre eles!
Georges